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Carla Medrado
Consultora em Cultura Organizacional, Liderança, Bem-estar e Felicidade
Founder da IN Sight
O dia só tem 24 horas, e isso é um alívio
Por muito tempo eu acreditei que meu problema era o tempo. Que ele era curto, escasso, ingrato. Que se eu tivesse só mais uma horinha no dia, tudo se encaixaria melhor. Mas um dia eu percebi: o problema não era o tempo. Era eu mesma.
Foi desconfortável admitir isso. Perceber que grande parte do meu cansaço, da minha sobrecarga e da minha frustração vinha de escolhas (ou da falta delas) que eu fazia todos os dias. O tempo sempre esteve ali, firme e generoso: 60 minutos por hora, 24 horas por dia. Quem se perdia no meio disso tudo era eu.
Comecei então a me observar com mais atenção. Por que eu dizia “sim” quando queria dizer “não”? Por que eu insistia em fazer tarefas que poderiam (e deveriam) ser delegadas? Por que eu me orgulhava de trabalhar sob pressão, como se isso fosse uma habilidade, quando, na verdade, era só exaustão disfarçada?
Fui entendendo, aos poucos, que não se trata de “gerenciar o tempo”, mas sim de gerenciar a mim mesma diante do tempo que tenho. E isso exige coragem: para mudar hábitos, para ser honesta sobre minhas prioridades, e, principalmente, para assumir que algumas distrações são mais convenientes do que parecem.
Essa constatação não é só minha. O escritor Oliver Burkeman, em Quatro Mil Semanas, defende algo parecido: tempo não se administra, se vive, porque a ideia de dominá-lo por completo é, na prática, impossível. O alívio começa quando a gente para de tentar vencer o relógio e passa a decidir, com mais consciência, o que fazer com o tempo que realmente existe.
Aprendi a planejar melhor. Não no sentido de preencher cada minuto com uma tarefa, mas de dar direção aos meus dias. Comecei a escrever meus objetivos, organizar meu dia de acordo com meu ritmo de energia, e revisar no fim da jornada o que funcionou e o que não funcionou.
Claro, sigo escorregando aqui e ali. Ainda sou humana. Ainda me distraio, ainda tenho dias bagunçados, ainda adio tarefas. Mas hoje eu enxergo isso com mais gentileza e responsabilidade. Porque, no fundo, a gente não precisa de mais tempo. A gente precisa se apropriar melhor do tempo que já tem.
E esse é um ponto que me fez olhar também para as organizações. Perceber como, muitas vezes, criamos rotinas profissionais onde a escassez de tempo é normalizada. As agendas já nascem lotadas, uma reunião colada na outra, sem pausa para respirar, refletir ou simplesmente existir entre os compromissos. Como se produtividade fosse medida pela ocupação da agenda, e não pela qualidade da presença.
Essa cultura de urgência constante tem um efeito colateral silencioso, mas profundo: a sensação de que estamos sempre devendo. Mesmo quando entregamos, mesmo quando damos o nosso melhor, parece que nunca é o suficiente. Esse sentimento de insuficiência, somado à pressão de performar o tempo todo, mina a nossa autoestima profissional e afeta diretamente nossa saúde emocional.
É aí que mora o gatilho: começamos a nos cobrar mais, a dormir menos, a dizer mais “sim” do que deveríamos. Pouco a pouco, vamos nos afastando de nós mesmos. A produtividade vira sobrevivência, e o bem-estar fica para depois.
Talvez esteja na hora de repensarmos essa cultura da pressa. Criar espaços mais humanos no cotidiano corporativo. Incentivar pausas intencionais, encontros com propósito, tempo para o foco profundo. Porque, do contrário, continuaremos apenas sobrevivendo aos nossos dias, e não vivendo de fato neles.
Se você sente que está sempre correndo atrás do relógio, talvez valha o exercício de parar por um instante. Observar seus hábitos, rever suas prioridades e, quem sabe, redesenhar seus dias com mais intenção. Porque o tempo, esse a gente não controla. Mas a gente pode decidir como quer viver dentro dele, inclusive no trabalho.
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